19/03/2012

ROTEIRO DE ATIVIDADES - LITERATURA DE INFORMAÇÃO E TEXTOS JESUÍTICOS/ RELATO DE VIAGEM E CRÔNICA

ROTEIRO DE ATIVIDADES

- 1º bimestre da 1ª Série do Ensino Médio: 1º CICLO -

 

EIXO BIMESTRAL: LITERATURA DE INFORMAÇÃO E TEXTOS JESUÍTICOS / RELATO DE VIAGEM E CRÔNICA


Texto Gerador 1

Carta de Achamento do Brasil (Pero Vaz de Caminha)


Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vos­sa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar e falar – o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu. [...]
E portanto, Senhor, do que hei de falar começo. E digo quê:
[...] seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Pás­coa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos. Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redon­do; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz! [...]
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro [...]. A feição deles é serem pardos, um tan­to avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. [...]
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. [...] Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata! [...]
Dos que ali andavam, muitos – quase a maior parte – traziam aqueles bicos de osso nos beiços.
E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns es­pelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.
E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d'escaques.
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam. [...]
Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos [...].
Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as apa­rências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, por­que certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. [...] E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza.[...]
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela [na nova terra], ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados [...]. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo. [...]
Beijo as mãos de Vossa Alteza
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha.

(CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El Rei D. Manuel. Disponível em:  http://www.culturabrasil.org/zip/carta.pdf. p. 1, 2, 3, 7, 8, 9.)



ATIVIDADES DE USO DA LÍNGUA

Questão 1:
O homem dispõe de vários recursos para se comunicar.  É justamente a capacidade de usar diferentes linguagens (formas não-verbais, como cores, sons, figuras, gestos, ou formas verbais, as palavras) que nos torna seres humanos racionais, diferenciando-nos dos animais.  A linguagem funciona, então, como um código utilizado na construção de uma mensagem que, por meio de um canal, transmite a informação de uma pessoa para outra. Com isso, notamos que há certos fatores – chamados elementos da comunicação – que são imprescindíveis para que tal transmissão se realize.
A partir disso, responda aos itens abaixo:

A - Identifique os elementos que estruturam a comunicação mediada pelo Texto Gerador I.
a) Emissor
b) Receptor
c) Mensagem
d) Código
e) Canal
f) Contexto ou referente

B - Levando em consideração os elementos da comunicação que você identificou no item A, responda:
a) Qual dos elementos da comunicação recebeu maior destaque no relato de viagem apresentado por meio da carta?
b) Qual função da linguagem predomina, então, nesse texto?
c) Quais marcas linguísticas comprovam isso?


Questão 2:
Apesar de não ser o objetivo do texto, em alguns trechos da Carta, Caminha apresenta envolvimento com o relato, deixando transparecer sua posição acerca do que observa na nova terra:

“[...] aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.”
“Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos [...]”
“E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã [...]”
“o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente.”

Considerando os trechos do quadro, assinale a alternativa que apresente corretamente a função de linguagem predominante e a explicação para tal predominância:
(A) Conativa, já que consiste em influenciar o comportamento do destinatário (“eles”, “esta gente”, “lhes”).
(B) Emotiva, pois está centrada no próprio emissor da mensagem (“e me pareceu”, “Parece-me”, “a mim e a todos pareceu”).
(C) Fática, uma vez que reflete a preocupação de manter o contato, focalizando o canal (“se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos”, “não lhes falece outra coisa para ser toda cristã”).
(D) Metalinguística, porque está centrada no código (“se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa”).
(E) Referencial, visto que focaliza o contexto, refletindo uma preocupação em transmitir, com objetividade, conhecimentos referentes aos fatos, eliminando, por isso, marcas de primeira pessoa.


Questão 3:
Uma mesma palavra pode expressar diferentes sentidos, que são determinados por fatores como o contexto e a intenção de quem fala ou escreve. Quando uma palavra é utilizada com significação objetiva, limitando-se aos sentidos descritos no dicionário, dizemos que foi empregada denotativamente. Quando é utilizada com significação subjetiva, expressando outros sentidos por associações, dizemos que foi empregada conotativamente.
Considerando essas informações, observe estes fragmentos retirados da Carta de Caminha e, em seguida, responda aos itens A e B:
i) “Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.”
ii) “Contudo, o melhor fruto que dela [da nova terra] se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”

a) É possível perceber que os termos destacados não possuem o mesmo significado nos dois contextos. Assim, indique os possíveis significados dos vocábulos “semente” e “fruto” em cada uma das passagens do texto.
b) Considerando a reposta anterior, explique: Em qual trecho os vocábulos destacados foram empregados conotativamente? E em qual foram utilizados denotativamente?


ATIVIDADES DE LEITURA

Questão 4:
A carta é uma situação comunicativa em que os parceiros não estão face a face, mas preservam suas identidades. Dessa forma, em seus escritos, Caminha não só demonstra a hierarquia da tripulação ao rei como também revela aspectos da organização social portuguesa no contexto histórico das grandes navegações.
Considerando essa preservação de identidades discursivas, recupere, no texto, um fragmento que comprove a submissão do escrivão Caminha ao rei D. Manuel. Em seguida, justifique essa escolha.


Questão 5:
A Carta é considerada um marco documental, pois, por intermédio dela, é possível recuperar aspectos culturais e ideológicos da sociedade portuguesa da época. Tendo em vista essa consideração, recupere, no Texto Gerador 1, trechos que comprovem o afastamento de algumas ações indígenas da concepção portuguesa de civilização, representando, portanto, um choque cultural entre os dois povos.


ATIVIDADE DE LEITURA e DE USO DA LÍNGUA

Questão 6:
Já vimos que, para a comunicação se efetivar, alguns elementos são necessários: é preciso haver um emissor (ou locutor) e um receptor (ou interlocutor) que compartilhem um código linguístico utilizado na construção e transmissão da mensagem. Tendo em vista essa afirmativa, responda:
a) Que obstáculo foi apontado por Caminha para a evangelização dos índios? Justifique com um fragmento.
b) A qual elemento da comunicação se relaciona esse empecilho?
c) Qual seria, portanto, a função de linguagem predominante no fragmento que você selecionou?


Texto Gerador 2

Duas Viagens ao Brasil (Hans Staden)
Capítulo 36: Como os selvagens comeram um prisioneiro e me levaram para a festa


Alguns dias depois, quiseram comer um prisioneiro numa aldeia chamada Ticoaripe, a cerca de seis milhas de Ubatuba. Da minha própria aldeia acorreram vários e me levaram junto. Fomos num barco. O escravo que queriam comer pertencia à tribo dos Maracajás.
Como é costume deles quando querem comer um homem, prepararam uma bebida de raízes que chamam de cauim. Somente depois da festa da bebida é que o matam.
Quando finalmente o momento chegou, fui na noite anterior ao festim falar com o escravo e disse-lhe: “Então você está preparado para morrer”. Ele riu e respondeu: “Sim, estou com todo o equipamento, apenas a muçurana não é bastante longa. Em casa temos melhores.” Eles chamam de muçurana uma corda de algodão algo mais espessa que um dedo, com a qual os prisioneiros são amarrados, e sua corda era cerca de seis braças curta demais. Ele falava como se estivesse indo a uma quermesse.
Eu tinha comigo um livro em português que os selvagens acharam num navio conquistado com a ajuda dos franceses e deram para mim. Eu li um pouco desse livro quando deixei o prisioneiro, e fiquei com pena dele. Por isso fui de novo encontrá-lo e falei outra vez com ele, pois os Maracajás estão entre os amigos dos portugueses: “Eu também sou prisioneiro, igual a você, e não vim porque quero comer um pedaço de você, e sim porque meus senhores me trouxeram”. Ao que ele respondeu que sabia muito bem que nós não comíamos carne humana. Continuei dizendo-lhe que devia consolar-se, pois eles comeriam apenas a sua carne, mas que seu espírito iria para um outro lugar, para onde também vão os nossos espíritos, e que lá havia muita alegria.
Ele perguntou, então, se isso era verdade. Eu disse que sim, e ele retrucou que jamais tinha visto Deus. Terminei dizendo que ele veria Deus na outra vida e afastei-me, uma vez que a conversa estava encerrada.
Na noite seguinte, bateu um forte vento soprando tão poderosamente que arrancou pedaços da cobertura da casa. O que fez os selvagens ficarem zangados comigo. Disseram em sua língua: “Aipó mair angaipaba ybytu guasu omou”. O que vem a ser: o homem mau, o santo, agora faz com que o vento chegue, pois durante o dia olhou na ‘pele do trovão’”. Assim chamavam o meu livro. Eu teria chamado o mau tempo porque o escravo era amigo nosso e dos portugueses e assim eu talvez quisesse impedir a festa. Então roguei a Deus e disse para mim mesmo: “Senhor, tu que me protegeste até agora, continua a proteger-me”. Isso porque sussurravam muito a meu respeito.
Quando amanheceu, o tempo estava bom. Bebiam e estavam muito contentes. Então fui ao encontro do escravo e disse-lhe: “O forte vento era Deus. Ele quer te levar até a presença Dele.” Ele foi comido no segundo dia depois desse. Vocês saberão como isso ocorreu no vigésimo nono capítulo do segundo livro.



ATIVIDADE DE LEITURA

Questão 7:
Em uma das suas viagens ao Brasil, Hans Staden acabou aprisionado por uma comunidade Tupinambá, que, segundo ele, tinha a intenção de devorá-lo. Sendo assim, o viajante alemão dedica boa parte de sua narrativa à descrição dos rituais antropofágicos dos nativos. De acordo com o texto, responda:
a) Que imagem dos povos indígenas esse relato ajudou a difundir pela Europa?
b) De que modo descrições do “Novo Mundo” como essa, feita por Staden, serviram de justificativas às missões civilizatórias portuguesas?


ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA e DE LEITURA

Questão 8:
Por ser tratar de uma época em que era comum surgirem histórias de viagens mentirosas e absurdas, Hans Staden preocupou-se em escrever um relato minucioso. Em vários momentos, o autor transcreve e traduz vocábulos ou, até mesmo, breves diálogos em Tupi, como é possível observar no trecho a seguir:
“Na noite seguinte, bateu um forte vento soprando tão poderosamente que arrancou pedaços da cobertura da casa. O que fez os selvagens ficarem zangados comigo. Disseram em sua língua: ‘Aipó mair angaipaba ybytu guasu omou’. O que vem a ser: o homem mau, o santo, agora faz com que o vento chegue, pois durante o dia olhou na ‘pele do trovão’”.

Com base nessas informações:
a) Identifique a função da linguagem predominante neste texto.
b) Indique o provável propósito de Staden ao registrar a língua Tupi?


Texto Gerador 3

Pequeno relato de viagem (Ana Miranda)



Estou de volta do Crato, trazendo na lembrança as serras azuis que cercam o vale do Cariri, riscadas pelas águas que descem o flanco, formando quedas; uma vegetação exuberante, povoada de animais preciosos e diversos. O “oásis do sertão” é também verdejante, apesar de assolado por estios, como o de 1877, que nosso padim Cícero teve de enfrentar junto com seus fiéis. Ali estão as prósperas cidades de Crato e Juazeiro, quase juntas de tão crescidas.
Juazeiro, nascida numa trilha onde havia três dessas milagrosas árvores, que davam pouso aos viajantes, está fazendo cem anos por agora. É incrível pensar que em apenas cem anos as poucas casas de barro e palha se transformaram nessa metrópole, passando por tantos sofrimentos, tantos conflitos; e hoje é um centro de religiosidade dos maiores no mundo, terra com a nobre vocação acadêmica, berço de mestres. Ali sempre visito dona Assunção, pintora e mestra da cultura, que faz os bolos confeitados mais perfeitos, e conheceu padre Cícero, quando era menina. Também andei fazendo um trabalho junto a gravuristas da Lira Nordestina, numa pequena antologia de poemas ilustrados com xilos. Nunca deixo de ir ao mestre Espedito Seleiro, em Nova Olinda, para comprar umas currulepes, tão apreciadas na Califórnia; e visito as crianças que administram uma casa, em projeto exemplar.
O Crato é mais antigo. Foi primeiro o aldeamento da Missão do Miranda – meu xarapim era um chefe indígena – e em 1745 consistia em apenas uma igreja de taipa nas margens do rio Granjeiro, cercada de poucas e singelas casas. Cidade com história grandiosa: ali dona Bárbara de Alencar e outros heróis lutaram pela nossa independência, e pela república, quando a Vila Real do Crato já era das povoações mais importantes do Nordeste colonial, no começo do século 19. O município tem carrascais, florestas espinhosas e de chuvas, resquícios de Mata Atlântica, e é um dos lugares mais sensíveis para a conservação da riqueza natural do Ceará. Possui universidades, metrô, feira de gado; artistas e artesãos, como o antigo mestre Noza, cujo galpão fui visitar; tem parque natural, a fabulosa banda cabaçal dos Irmãos Aniceto, e academia de cordel em homenagem ao Patativa; tem infelizmente alagamentos causados pela destruição das matas nos cílios do Granjeiro e seu assoreamento. Visitamos a graciosa estação férrea e entramos numa casa antiga, era uma instituição pública, mas parecia a casa de nossas avós, com santos e crochês. 
Conheço algo da vida familiar cratense quando visito minha amiga, a professora Maria Isa, e seu marido, o médico Luciano. Eles possuem uma cultura ao mesmo tempo erudita e popular, são capazes de discorrer longamente sobre um livro clássico, ou as qualidades e usos do rapé entre os sertanejos. Antes de subirmos a ladeira até sua bonita e antiga casa no alto da colina, paramos para comprar um bolo de milho que poucas vezes provei tão bom. O filho Bernardo, também médico, também conversador, fascina as visitas com histórias curiosas do povo cearense. Dessa vez, fomos assistir à coroação de Nossa Senhora, na praça, debaixo de uma chuva fininha. Vi aquele povo devoto, compungido pelo que a vida traz de sofrimentos e esperanças. Senti-me no mais profundo dos Cearás. 
Fui convidada pelo Sesc. Levava nos braços um livro e uma lata de leite especial, para entregar ao bispo do Cariri, dom Panico, mandados por dona Lúcia, coisa tão meiga e nordestina; acompanhada de duas amigas inseparáveis, vi que estou ficando parecida com a minha mãe, que só viaja em comitiva. Recepcionada pela doce Tina e seu esposo, fui para uma noite de incentivo à leitura, aberta por uma orquestra de sopros, ainda mais emocionante para mim, avó de um trompetista e um futuro clarinetista crianças; teve cordel lido pelo autor, Maércio Lopes Siqueira. Havia uma exposição de trabalhos de crianças que leram livros infantis e se inspiraram nos personagens e nas histórias, as coisas mais lindas esses desenhos!
Depois, conversas com um público atento e silencioso, a lotar uma quadra de esportes. Professores falaram com a voz de quem sabe o que diz, tecendo comentários elaborados por estudos; conversas longas sobre como a leitura, principalmente a de livros, e ainda mais, a de livros do tesouro literário, é capaz de construir nosso pensamento, ampliando nossos conhecimentos, nossa imaginação, nossa fala. Voltei abraçada a livros ou originais de escritores do Cariri, pensando em toda aquela gente autêntica, com um quê de pureza, lutando entre o avanço do tempo e a tradição. Um artista amigo meu disse: O vale do Cariri é lindíssimo, minha alma se perde por lá quando volto de viagem, uma vez acompanhei às cinco da manhã os catadores de pequis. Verdade, nossas almas se perdem por lá.

Acesso em: 27/12/2011.



Texto Complementar 1

De um avião (João Cabral de Melo Neto)

1

Se vem por círculos na viagem
Pernambuco – Todos-os-Foras.
Se vem numa espiral
da coisa à sua memória.

O primeiro círculo é quando
o avião no campo do Ibura.
Quando tenso na pista
o salto ele calcula.

Está o Ibura onde coqueiros,
onde cajueiros, Guararapes.
Contudo já parece
em vitrine a paisagem.

O aeroporto onde o mar e mangues,
onde o mareiro e a maresia.
Mas o ar condicionado,
mas enlatada brisa.

De Pernambuco, no aeroporto,
a vista já pouco recolhe.
É o mesmo, recoberto,
porém, de celuloide.

Nos aeroportos sempre as coisas
se distanciam ou celofane.
No do Ibura até mesmo
a água doída, o mangue.

Agora o avião (um saltador)
caminha sobre o trampolim,
Vai saltar-me de fora
para mais fora daqui.

No primeiro círculo, em terra
de Pernambuco já me estranho.
Já estou fora, aqui dentro
deste pássaro manso.

2

No segundo círculo, o avião
vai de gavião por sobre o campo.
A vista tenta dar
um último balanço

A paisagem que bem conheço,
por tê-la vestido por dentro,
mostra, a pequena altura
coisas que ainda entendo.

Que reconheço na distância
de vidros lúcidos, ainda:
eis o incêndio de ocre
que à tarde queima Olinda;

eis todos os verdes do verde,
submarinos, sobremarinos:
dos dois lados da praia
estendem-se indistintos;

eis os arrabaldes, dispostos
numa constelação casual;
eis o mar debruado
pela renda de sal;

e eis o Recife, sol de todo
o sistema solar da planície:
daqui é uma estrela
ou uma aranha, o Recife,

se estrela, que estende os seus dedos,
se aranha, que estende sua teia:
que estende sua cidade
por entre a lama negra.

In: NETO, João Cabral de Melo. A educação pela pedra e outros poemas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p.p. 36-38 (fragmento).


ATIVIDADE DE LEITURA

Questão 9:
Os textos podem se destinar à transmissão de informações por meio de explicações claras e objetivas, apresentando, neste caso, uma função utilitária, típica dos textos não literários. No entanto, também há textos que apresentam uma forma bastante particular. Nesses casos, as palavras empregadas podem assumir outros sentidos além dos dicionarizados e o modo de construção das mensagens passa a ser tão ou mais importante que o conteúdo transmitido. Esses textos apresentam uma função estética ou poética, característica dos textos literários.

Os textos acima têm em comum o tema da viagem. Todavia, transmitem as informações de forma distinta. A partir de sua leitura, responda:
Em qual deles predomina a função utilitária – característica dos textos não literários – e em qual deles predomina a função estética – típica dos textos literários? Justifique.





ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL

Questão 10:

Relatar é uma experiência comunicativa de mão-dupla: relatando um fato, somos capazes de compreendê-lo melhor e possibilitamos que outras pessoas também tenham acesso a uma experiência vivida por nós e a entendam.[1]


Redigindo um relato de viagem

FishingÉ comum nos fascinarmos por programas de viagens que mostram lugares, pessoas e culturas diferentes da nossa. Quem nunca achou interessante, por exemplo, o falar de pessoas de outros estados ou até mesmo de outros países? Relatar essas experiências pode ser uma atividade bem divertida. As situações difíceis ou alegres por que tenhamos passado podem proporcionar boas risadas entre os colegas de turma. Mas, como transmitir essa experiência de maneira envolvente? A seguir vão algumas dicas para ajudar na produção desse gênero dos viajantes.




Image ID: 1094384 | Foto Hidden


COMO?
Neste bimestre, estudamos os relatos de Pero Vaz de Caminha, Hans Staden e Ana Miranda. Agora, selecione uma viagem que você tenha vivido e que gostaria de compartilhar com seu professor e seus colegas de classe. Não se preocupe com o tipo de viagem, se foi longa ou curta, distante ou próxima de sua residência; afinal, desses lugares sempre podemos aproveitar experiências interessantes. Quem sabe esse relato possa ser fixado no mural da escola com algumas imagens dessa viagem.


PLANEJAMENTO
Utilize a estrutura lógica do relato de viagem:

1) Como foi a preparação da viagem? A ansiedade, o trajeto, as dificuldades, quem foi com você?
2) Quais foram as primeiras ações? E as seguintes? Nessa parte do planejamento, é interessante destacar as ações em ordem cronológica, ou seja, reunir os fatos que marcaram desde sua chegada ao destino até o retorno da viagem na ordem em que aconteceram.
3) Como foi o retorno? Deixou saudade? Foi uma experiência ruim? Qual a lição que fica dessa experiência?


ELABORAÇÃO
Estrutura global

Linguagem: Escreva em linguagem objetiva e clara e empregue a variedade padrão da língua.
Estrutura gramatical: Observe que os verbos, nos relatos de viagem, estão, predominantemente, no pretérito perfeito (passado).
Organização textual: Lembre-se de que o relato de viagem é um texto de comunicação com foco nas ações vivenciadas pelo viajante, importantes para a sequência do texto. Atente, também, para o modo de organização descritivo: a caracterização do ambiente e das pessoas, com seus costumes, crenças e outras características, enriquecerão seu relato.
Ponto de vista: Um relato de viagem é repleto de impressões pessoais e muitas observações demonstram um certo estranhamento entre culturas, hábitos diferentes. Relate realmente o que você acha do que conheceu na viagem, mas cuidado para não ofender ou ferir as pessoas.



[1] FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de; MARUXO Jr, José Hamilton. Língua Portuguesa: linguagem e interação. Vol 1. São Paulo: Ática, 2010. p. 204.

7 comentários:

  1. Aew vcs podem me passar as respostas desses exercicios para me ajudar a fazer minha dependência de português!!!

    ResponderExcluir
  2. Gostaria do gabarito desse exercício , eu sou professora e pretendo passar aos meus alunos

    ResponderExcluir
  3. por favor tem como me ajuda me respondendo e 1 ,2,3 e 4 por favor

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. também gostaria de respostas.

      Excluir
  4. Senhor (a) dono do blog , será que como o senhor (a) me ajudar no trabalho de português se tiver como muito obrigado , se não tiver como muito obrigado também .

    OBS: Saiba que se o senhor (a) me der a resposta você estarar ajundando o proximo , causo ao contrario não estarar e Deus manda ajudar o proximo

    ResponderExcluir
  5. Preciso muito dessas respostar por favor teria como postar ?

    ResponderExcluir